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Branca como a neve

10.Novembro.2009

Blankets

Retalhos - Craig Thompson

“Obrigado, Deus, pela perfeição de suas criaturas. De pele suave e pálida como o luar, sob a pele, seus ossos se entrelaçando, se ajustando, subindo pela crista ilíaca, mergulhando na clavícula. Obrigado pelo ritmo de seus movimentos, curvando-se, espreguiçando-se, seus contornos envolvendo o cobertor como onda. Ela é sua. Ele é perfeita. Um Templo! Seu cabelo derramando-se sobre as têmporas. Deitado sobre seu peito, posso ouvir a eternidade… espaços ocos, solitários, e correntes que se agitam sem cessar. A neve caída recebe a neve cadente como um sussurro.”

- Craig Thompson, Retalhos (Blankets).

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Eu calei porque…

29.Outubro.2009

Para Tico Bolpas.

Eu calei porque nós não brigamos mais. Calei pra te ouvir, calei porque você me ouviu tanto a ponto de me entender. É que eu me calo quando estou feliz. Eu que tanto falo me calo pra mostrar felicidade. Não reclamo em silêncio, não faço luto, meu silêncio é sempre felicidade. Minha reserva é falada, então calo pra te mostrar meu amor. Eu calei porque não preciso mais gritar que é pra você se preocupar comigo, você já sabe. E eu me calo de orgulho. Eu calei porque na cama o silêncio se faz necessário. Eu calei porque você me calou com um beijo quando outra discussão estava prestes a começar. Eu calei porque você me orgulha a cada dia que passa. Eu calei porque prefiro escrever. Prefiro te dizer em palavras o quanto quero que essa paz silenciosa dure pra sempre. Ainda que pra sempre seja um silêncio na minha boca. Eu calei porque vi que quando mais te amo é em silêncio, que você é mais lindo em silêncio. Eu calei porque prendi a respiração quando te vi do outro lado da rua, me esperando em silêncio. Fiz silêncio em tua homenagem, parei de respirar em sua homenagem. Você anda merecendo meu silêncio mais puro. Eu calei porque essa é a minha maior forma de sacrifício. Eu calei porque meus gemidos nunca serão suficientes, eu calei porque minhas palavras nunca serão suficientes, eu calei porque meus clichês nunca serão suficientes. Eu calei porque você me pediu silêncio em silêncio. Eu calei para você calar também. Abri a boca para chegar até você e me calando num soluço descobri: você me disse mais coisas que qualquer palavra poderia dizer.

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Eu choro porque…

20.Outubro.2009

Eu chorei porque dói quando não sai uma palavra dos meus dedos, eu chorei porque me violenta não sentir absolutamente nada que seja digno de se organizar em frases. Eu chorei porque às vezes choro pra ter tinta pra escrever. Eu chorei porque a minha tinta é diluída em lágrima. Eu chorei porque eu choro quando escrevo e dói, doi tanto pensar que talvez tudo isso seja em vão. Eu chorei porque essa dor sobe pela garganta e eu sinto vontade de gritar tudo isso que tenho a dizer, mas não consigo. É como se quando eu começasse a chorar o mundo todo tapasse os ouvidos e de nada me adiantaria gritar. Por isso escrevo. Não sei cantar, por isso escrevo. Não tenho coragem pra gritar, por isso escrevo. Não tenho coragem de amar, por isso escrevo, Não tenho vontade de andar, de fazer, de chutar nada, por isso escrevo. Eu chorei porque eu só sei escrever e isso é tão difícil que choro toda vez que faço. Eu chorei porque eu nunca tenho motivos, mas ainda assim as palavras vem na minha cabeça como se fossem explodir a qualquer momento. Eu chorei porque não tenho medo de balas perdidas, mas sim de palavras. Eu chorei porque um dia eu não tinha caneta, no outro não tinha papel e se um dia eu não tiver mais palavras? Eu chorei porque sonhei que minhas mãos derretiam. Me deixem surda, me deixem muda, mas não me deixem sem minhas mãos. Eu chorei porque minha mãe tem problema de vista e se eu fico cega vou chorar. Eu chorei porque meus livros crescem cada dia mais, mas não cresce em mim a minha vontade de que o meu esteja na sua estante. Eu chorei porque quando me falta amor eu escrevo, quando me sobra amor eu escrevo, quando me dão amor eu escrevo, quando eu sinto saudae eu escrevo. Mas escrever dói. Eu chorei porque descobri que o que me dói não é o amor e sim a vontade de escrever. Eu chorei porque entendi que na verdade, o que me dói é nunca ter o que dizer e me sentir estuprada por isso que sai de mim sem o menor controle. Eu chorei porque muita gente nunca me entendeu, nem acreditou. Eu chorei porque eu li alguma coisa que dizia sobre papéis em branco e quartos vazios. Toda vez que escrevo é como se eu tivesse um quarto cheio de coisas que não consigo enxergar. Eu chorei porque fiquei meses, anos sem dizer uma só palavara e ainda assim não aprendi a cantar. EU chorei porque as frases dos outros se amontoam em mim e eu não consigo escrever. Eu chorei porque me sacudiram e só o que sobrou no fundo do pote foram palavras. Eu sobrei porque queria desenhar e não escrever. Eu chorei porque queria amar e não escrever. Eu chorei porque eu queria andar e não escrever. Eu chorei porque só queria pensar, sem escrever. Eu chorei porque de verdade, eu juro, dói, dói demais sentir essas coisas que . Essas coisas que. Exatamente elas que me fazem chorar. Eu chorei porque toda vez que as lágrimas escorrem elas me dizem alguma coisa. Eu chorei porque quanto mais turvos meus olhos mais claras ficam as minhas palavras.

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Eu chorei porque…

05.Outubro.2009

Eu acordei e você estava longe, eu precisava te agarrar com força, te morder, eu precisei de você ontem de noite e você não estava lá. Parecia que eu ia cair dentro do meu coração se não te agarrasse, havia um furo negro que não terminava no meio do meu peito e eu ia despencar, tive uma vertigem, precisei me segurar na cama com força, cravar as unhas no lençol. Eu acordei e você dormia tão linda, eu chorei porque você dormia tão linda. Eu sei, sei que podia, mas não quis te acordar, ter você dormindo ao meu lado era tudo o que eu queria.

- Beatriz Bracher, Davi (ter você dormindo ao meu lado era tudo o que eu queria).

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Estupro

02.Outubro.2009

Primeiro texto escrito para o projeto do Caio Riscado e companhia. A intenção era responder a frase: “O que te violenta?” e foi isso que respondi.

Cravo a caneta levemente no papel. Cravo a caneta de forma que as palavras não saiam feito tinta, mas sim feito sangue. Porque às vezes sinto sangrar meus sentidos e quero que o papel sangre comigo. Um cheiro me fez sangrar esses dias. Senti um cheiro que cravou em mim uma dor daquelas de se contorcer. Cravou em mim um pescoço, cravou um lenço, uma gola de camisa. Cravou em mim uma memória que não consigo mais lembrar. Agora ando com essa humilhação cravada em meus olhos, no meu nariz, porque sinto o cheiro escorrendo pela ponta da caneta enquanto bato levemente em cada letra escrita. Me sinto humilhada quando noto que minha memória confunde as peles que já devorei um dia, me sinto atacada por trás, destituída do meu poder exclusivo de lembrar das coisas. Me sinto tomada por uma vontade imensa de chorar, como se eu levasse em meus ombros mais peso do que poderia, como se cada cheiro nas esquinas destruísse a minha postura, quebra-se a coluna ao meio, me fazendo curvar diante de um corpo sem rosto, uma pessoa sem voz, braços sem marcas. Me dou conta de que devorei mais pessoas do que minha memória poderia lembrar e cravo lentamente em mim cada gosto, cada cheiro, cada gesto, cravo devagar até sangrar um perfume qualquer, uma mistura qualquer de quantas pessoas eu puder aguentar. E choro. Humilhada choro. Choro por cada pessoa que esqueci, por cada cheiro que sangra em meus caminhos, choro desesperada, choro. Choro, mas não com a leveza de uma prostituta que assume isso para si mesma, não, choro como uma garota que foi estuprada. Choro como uma garota que foi estuprada e continua sendo. Choro com a intensidade de quem se debate para escapar. Eu me debato contra os cheiros, contra os pescoços e orelhas e bocas e braços e punhos e mãos, mas não penso em escapar. Choro e continuo presa, respirando ofegante e cada vez mais rápido. E a cada esquina entendo com o corpo inteiro que às vezes é necessário respirar fundo para perceber que viver não tem cheiro. Nem gosto.

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Eu sobrei porque…

25.Setembro.2009

Para Caio Riscado, Isadora Malta e “nossos” projetos.

Eu sobrei porque não sei escrever. Sobrei exatamente por achar bonito ver desenhos ao invés de letras. Sobrei porque estava sozinha naquela enfermaria com uma tábua na minha frente e os olhos vazios de significados. Sobrei porque quando olharam nos meus olhos livres de duplo sentido logo entenderam: eu sou analfabeta. Eu sobrei porque meus parentes moram longe e fiquei sozinha na entrada daquele prédio velho e feio. Sobrei porque quando perguntei como chegar onde deveria chegar me disseram que era só acompanhar as placas. Mas eu não sei ler. Eu sobrei porque na hora de assinar a minha sentença de liberdade eu não sabia. Eu não sei assinar meu nome. Eu sobrei no meio de tantas mulheres resolvendo sozinhas seus problemas e eu tendo que esperar alguém em quem confiar, um carimbo e meus dedos que não seguram canetas. Eu sobrei quando todas as outras liam livros e faziam palavras cruzadas, e eu, olhava pros círculos sujos no teto, se desenhando, com certeza, como as letras que nem ao menos sei o nome. Eu sobrei quando não pude ler o que estava escrito na tatuagem da filha da minha vizinha de enfermaria. Uns desenhos bonitos, umas flores que não sei o nome e aquelas letras que de desenho eram mais bonitas que flores. Eu não li o nome que estava em cima do meu leito, antes de trocarem os lençóis, nem ao menos posso saber de quem foi o suor que sujou esse colchão de plástico. Não li meu laudo, não li meus pedidos de exame, me poupei de me esforçar pra ler a letra do médico, que já me disseram que é horrível. Eu não sei se são realmente feias. Eu sobrei, mas li perfeitamente nos olhos da médica o pavor pelo que estava escrito nos papéis que eu trazia comigo. Eu sobrei, mas vivi dias de tranquilidade sem saber o que se passava ali, no meio daqueles carimbos, números e letras. Eu sobrei, mas vi no meu raio-x aquela massa estranha que passei a chamar de amor. Tinha formato de coração. Não sei se com letras dentro, mas aquilo é meu coração. Eu sobrei, mas sei ler com calma os lábios tremendo das pessoas que me olham com pena. Eu sobrei porque não sei ler papéis, mas olhos, bocas, narizes, pernas, mãos e veias, essas coisas sim, eu sei ler. Eu sobrei porque fiquei sozinha esperando minha vez, como já sobrei esperando esse tal carimbo outras vezes. Levo no dedão a marca negra dessa incompreensão de garranchos, digitações e cartas.

Sempre sobrei e sobro agora, mais que nunca, porque não fui eu quem escreveu essas frases.

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Sem açúcar, com remédio

16.Setembro.2009

Tô flertando com meu médico faz três semanas, ele segura na minha mão toda vez que vou embora e fico na expectativa do convite pro café. Nunca me convida. Enquanto isso vou sozinha pro café e aceno pro garçon que já sabe o que me servir: duas xícaras de café, uma sem açúcar, porque é assim que o doutor gosta. Tomo as duas xícaras na sede de engolir aquela feição branca que abre minhas portas toda sexta-feira.

Caí na rua um dia desses. Não doeu, mas todos me olharam. A sensação de ser vista me agradou, depois percebi que estou ficando velha e que cair para chamar atenção não posso mais. Torci o pé.

Fui ao médico na segunda, meu pé não parou de doer, mas o que doía mais eram meus olhos que não o viam há três dias. Ele me perguntou o que houve. Eu ri e disse que a mão dele não estava lá pra me levantar do tombo, então que estivesse agora pra curar. Suspensão. Pra curar essa psicose que criei em cair na rua, esse gosto por asfalto, tijolo, cuspe e cocô de pombo. Sabe, doutor, estou ficando louca, às vezes acho que a salvação tá naqueles caras que me dão papéis sobre empréstimos. Acho que poderia pegar um empréstimo e viajar pro Egito, chamar o doutor pra ir comigo, se eu cair nas areias egípcias gostaria de ser amparada por um homem com diploma, sabe? Suspensão. Pra curar esse tornozelo de velha que já não tá me servindo mais. Ele ri e diz: Tomou o remédio que eu te passei? Tomei.

Saí da sala e fui tomar meu café. Meus cafés. Nossos, cafés, doutor, nossas duas xícaras de café tão diferentes. Você que toma café sem açúcar pra tentar me ensinar que café já faz mal, com açúcar então… Diabetes, vício, pressão alta. Doutor, eu não fumo cigarro, me dê parabéns por isso. Ah, está me ensinando a cuidar da saúde não sentando aqui comigo nesse café de canto de calçada, esse café com esse garçon que me viu cair semana passada.

Pego ou não pego o remédio na bolsa? Meu remédio seria que o doutor abrisse minhas portas duas vezes por semana. Analista nunca, afinal de conta nada pode ser mais divino que amar o sujo, o nojo, o tombo e a dignidade de levantar.

Não posso esquecer. Não posso me esquecer de perguntar ao doutor. Suspensão. Quer tomar um café comigo? Assim, sem açúcar, com remédios, ali na esquina, depois você me leva pra casa, me abre as portas e vai embora. Suspensão. Doutor, tomar esses remédio com duas xícaras de café pode me fazer mal?

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Egotrip

13.Setembro.2009

Por PartyBusters

God was there, always had the best of drugs,
knew where to get them, brought a ladyfriend
and i believe her name was Stella, and he said
Stella, Stella, i wanna give you the world if you just stay with me tonight
Stella, i wanna give you the world if you just hold me tight

and i wonder how it will go
when God hands over the whole wide world to
a 43 year old hooker from downtown
maybe it’s about time the old man hands over the crown
Stella, Stella, i wanna give you the world if you just stay with me tonight
Stella, Stella, i wanna give you the world if you just hold me tight,
hold me tight

And it made me realize how much you wanna give away just to feel loved
And the Lord blinked to me and asked: What is real love to you?
What is fake and what is true?
Oh, Stella, i wanna give you the world if you just stay with me tonight
Stella, Stella! i wanna give you the world if you just hold me tight,
hold me tight

Stella – Ida Maria.

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Rubrica de silêncio

09.Setembro.2009

Para Caio Riscado.

Ouvir o vento, eu só ouço em silêncio. A dor da queda de peito, meu primeiro choro foi em silêncio. Quando fico sozinha é o silêncio que me incomoda. Intervalo de música é feito em silêncio. A barca é feita de silêncio. Olhar fixo pela janela, só em silêncio. O barulho me incomoda quando eu sou silêncio. Os gatos trepam enquanto cuido do silêncio. A primeira dor senti em silêncio. Quando conheço alguém é em silêncio. Coçar a cabeça faço no silêncio. Só beijo meu tigre de pelúcia em silêncio, aliás, ele é um silêncio. As fotos também são silêncio, minhas fotos admiro em silêncio. Quando fico muito feliz, sorrio em silêncio. Quando muito triste também. Fiz uma viagem de barco ao Uruguai em silêncio profundo, porque música às vezes é silêncio. Foi nessa viagem que descobri que frio é melhor assim. O Uruguai é um silêncio. Montevideo é neblina de silêncio. Quando vi rio e mar encontrados, fiz silêncio em homenagem.

Meu primeiro grito é em silêncio, o segundo silencia.

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Os seis minutos mais belos da história do cinema

03.Setembro.2009

Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de “galinheiro” — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas tentativas de chegar a D. Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou, é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue de pé, desembainha a espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte negro aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No fim, quase nada sobra do telão, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no “galinheiro” as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina da platéia o fixa com reprovação.

O que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto de as devermos destruir, falsificar (este é, talvez, o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando no final se revelam vazias insatisfeitas, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcinéia — que salvamos — não pode nos amar.

Giorgio Agamben