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Água Perrier

06.fevereiro.2010

Adoro, sei lá por que,
Esse olhar
Meio escudo
Que não quer o meu álcool forte e sim água Perrier.

- Calcanhotto e Cícero.

Não sei porque, se é pelo calor, se é pelo álcool, se é pela falta de escrita, se é por não sentir tua pele há tanto tempo, só sei que minhas mãos andam secas, sujas, grossas, doloridas. Não sei se é por ficar longe das canetas pra aliviar minha dor, não sei se é apenas físico, calor ou a ressaca a tudo e a todos. Não sei se é sua culpa.

Sei que ando com as mãos duras de não te sentir, ainda que eu deixe de beber e elas deixem de ficar ressecadas pelo sol. Ando com esse vazio entre os dedos que acabo preenchendo com outros dedos, que não os seus.

De protetor a água Perrier, já usei de tudo aqui, nessa massa dura que insisto em chamar de mãos. Pinto as unhas para disfarçar essa falta. Rezo de mãos abertas para ver se esse seu Deus, tão ausente, leva embora esses seus dedos que continuam aqui quando sinto saudade.

Acaba, que no fim de tudo, no fim desses dias quentes, a falta de escrever, o sol, os drinks, o verão, o trabalho, a correria, os espaços novos que ocuparam você, todas essas coisas só me fazem esquecer dos cremes, da água Perrier, das canetas, lápis, telas e cores. As coisas acabam se resolvendo, mas elas ainda não me fazem esquecer de você.

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Asas

05.fevereiro.2010
 

Nicoletta Ceccoli

Suas asas, amor
Quem deu fui eu
Para ver você conquistar o céu.

Observe tudo embaixo ser
Menor do que você,
Como tudo é. 

E enquanto arde a coragem dos desejos seus,
Sem véus,
(proteus). 

Abra seus poros, e papilas, e pupilas.
À luz da manhã. 

E muito acima de Ipanema,
tão pequena, tão vã.
Viva o prazer, o som,
O estrondo de uma onda
Na arrebentação. 

Enquanto eu piro à sua espera,
na esfera do chão.

- Adriana Calcanhotto e Antônio Cìcero.

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1.Jan.2010

01.janeiro.2010

Passei mais de cinco minutos da nova década tentando abrir uma garrafa de champagne. Justo eu que não bebo champagne. Justo nesse dia.

Rápido percebi que os fogos não eram pra mim, o champagne também não.

Fiquei estática olhando os fogos, alguns se pareciam a nuvenzinhas de ouro, outros mudavam de cor causando “ohs” e salvas de palma.

Ando sóbria demais pra andar, comer, abraçar, beber e beijar. É como se estar sóbrio fosse um estado de barriga cheia. Estou sóbria demais pra mim.

Alguns fogos se pareciam a coqueiros coloridos, outros não faziam barulho.

Os fogos no céu pareciam almas perdidas fazendo um baile de carnaval e purpurina perdida no nada.

Estourei a garrafa de champagne, mas já se iam cinco minutos. Meu relógio estava atrasado, então tudo bem.

De que me importam os minutos atrasados se vocês nunca vão voltar?

Subindo a ladeira de São Conrado li: se quer mel, aguente as abelhas. Posso querer fel e aguentar… ovelhas?

O pôr-do-sol bonito de hoje me confortou um pouco, já que o nascer eu vi sozinha, antes do ano acabar. Tirei foto, mas nada podia fotografar a sensação que tive.

Meu relógio novo brilha no escuro pra que pelo menos no escuro eu não consiga ver as horas.

Tô ouvindo uma música antiga que me faz lembrar de uma pessoa mais antiga que me fez sentir uma das sensações mais antigas que um ser humano poderia sentir: amor.

Saudade é gelado.

Nossa Senhora RAINHA DA PAZ, tira de mim esse amor imenso que me traz uma inveja imensa dos que não amam demais.

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Manchas Coloridas

18.dezembro.2009

Meu coração é uma cartolina colorida partida ao meio. Colada numa outra cartolina colorida partida ao meio. Colada em restos de outras cartolinas coloridas partidas ao meio que um dia foram coladas em outras cartolinas coloridas coladas no meio. Meu coração já foi uma cartolina colorida inteira. Até que um dia aprendi a usar palavras. E usei metade da cartolina pra escrever cartas de amor.

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Vermelho 35

14.dezembro.2009

O sapato é tão vermelho que me agride. Fica ali, no canto, esperando apertar os dedos que miram o buraco de outro sapato que não é nem tão vermelho, nem tão quente, nem tão apertado quanto esse. Encaixo os dedos dentro da meia e busco outro sapato, esse fica pra outro dia. Pro dia da semana passada em que eu peguei chuva, gritei na rua, caí no meio da poça e senti o sapato encolher meus pés e encolher minha vida, meus calos e estender meus minutos. Esse eu deixo pra outro dia, pro dia em que eu não tiver mais oportunidades de sentir doer o que nunca me dói. Esse eu deixo pros dias confortáveis em que o sol não brilha e a gente não sua. Deixo pro dia em que a chuva cair de novo, pro dia em que eu cair de novo, pro dia em que eu pensar outra vez que ninguém nunca vai saber o que sinto quando cruzo a rua às 7h30 da manhã, pisando em poças, cabeça vazia, pés apertados.

Sozinha, sentada, com calma, penso: ninguém nunca vai saber como se sentem os meus pés apertados.

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Cartas de uma jovem poeta

24.novembro.2009

03-10-2008

Ah, como é difícil nascer para escrever e ao mesmo tempo não acreditar nisso. E não acreditar com tanta força quanto tem as músicas que me habitam por aqui. Que me habitam mais do que eu mesma me habito. E como me soa difícil pensar assim, pensar que às vezes meu artesanato seja escrever e que talvez escovar os dentes para mim seja como escrever. Tão essencial e tão difícil. Com ter que beber água a cada momento que passa, como desistir de beber água a cada momento que passa. E como dói, como dói não beber água e como enjoa beber água. Como é ruim ter esses ruídos o tempo todo ocupando minha cabeça, como é ruim fotografar com palavras, beijar com silêncios e pensar com imagens que logo viram palavras e notas de um violão que nunca aprendi a tocar. Como me é difícil ser simples. Como sempre foi difícil ser simples. Como ser uma pessoa da terra me resultou mais difícil do que poderia eu imaginar. E como a sintaxe me desperta pra vida. E esse céu rosa e esse nome que me persegue e suas palavras que me fazem falta como as palavras em português que me fazem tanta falta quanto um engarrafamento. Ah, como sei que você me entende e como sei que é perigoso desconfiar. E confiar também. E ler também é perigoso. E assim também é ouvir. Se pudesse estaria cega-surda-e-muda de mim. Sem tato. Sem voz. Sem boca. Sem pensar na tentativa, sem nunca ter provado. E se eu pudesse falaria mais do que posso, veria mais do que posso, ouviria até estalar o tímpano, escreveria, sentiria, se eu pudesse, se eu fizesse. Não é? Se eu pudesse, se eu vivesse, eu poderia eu viveria. Não é? Quem melhor que você poderia ter me ensinado isso em meio a metáforas e titubeos… Em meio a tantos momentos de silêncio e cumplicidade. É que confio em você tanto, mas tanto, que nem posso sentir qual a diferença entre Mario e Fernando, entre Meira e Abreu. Que nem posso sentir a diferença entre Rosa e Garcia, entre amor prazer e simplesmente relato. Relato vazio. Porque é assim, não é? Se amassemos, se sentissemos. Se eu não optasse por outro nunca teria te conhecido. Se eu não optasse por tentar fugir nada teria dado tão certo. E ah, me sinto conseguir e tudo me escapole como numa bolha. Tudo me escapole e me sinto conseguir tanto que chego a sentir enjôo, vômito, naúsea, cheiro de roupa limpa e distância. Porque sei exatamente o que dizer e agora me sinto uma farsante. E ah, como eu sei que você me entende. Você e esse onitorrinco distante, do qual sinto tanta falta quanto dessas luvas que nunca ousei a vestir.

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Branca como a neve

10.novembro.2009

Blankets

Retalhos - Craig Thompson

“Obrigado, Deus, pela perfeição de suas criaturas. De pele suave e pálida como o luar, sob a pele, seus ossos se entrelaçando, se ajustando, subindo pela crista ilíaca, mergulhando na clavícula. Obrigado pelo ritmo de seus movimentos, curvando-se, espreguiçando-se, seus contornos envolvendo o cobertor como onda. Ela é sua. Ele é perfeita. Um Templo! Seu cabelo derramando-se sobre as têmporas. Deitado sobre seu peito, posso ouvir a eternidade… espaços ocos, solitários, e correntes que se agitam sem cessar. A neve caída recebe a neve cadente como um sussurro.”

- Craig Thompson, Retalhos (Blankets).

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Eu calei porque…

29.outubro.2009

Para Tico Bolpas.

Eu calei porque nós não brigamos mais. Calei pra te ouvir, calei porque você me ouviu tanto a ponto de me entender. É que eu me calo quando estou feliz. Eu que tanto falo me calo pra mostrar felicidade. Não reclamo em silêncio, não faço luto, meu silêncio é sempre felicidade. Minha reserva é falada, então calo pra te mostrar meu amor. Eu calei porque não preciso mais gritar que é pra você se preocupar comigo, você já sabe. E eu me calo de orgulho. Eu calei porque na cama o silêncio se faz necessário. Eu calei porque você me calou com um beijo quando outra discussão estava prestes a começar. Eu calei porque você me orgulha a cada dia que passa. Eu calei porque prefiro escrever. Prefiro te dizer em palavras o quanto quero que essa paz silenciosa dure pra sempre. Ainda que pra sempre seja um silêncio na minha boca. Eu calei porque vi que quando mais te amo é em silêncio, que você é mais lindo em silêncio. Eu calei porque prendi a respiração quando te vi do outro lado da rua, me esperando em silêncio. Fiz silêncio em tua homenagem, parei de respirar em sua homenagem. Você anda merecendo meu silêncio mais puro. Eu calei porque essa é a minha maior forma de sacrifício. Eu calei porque meus gemidos nunca serão suficientes, eu calei porque minhas palavras nunca serão suficientes, eu calei porque meus clichês nunca serão suficientes. Eu calei porque você me pediu silêncio em silêncio. Eu calei para você calar também. Abri a boca para chegar até você e me calando num soluço descobri: você me disse mais coisas que qualquer palavra poderia dizer.

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Eu choro porque…

20.outubro.2009

Eu chorei porque dói quando não sai uma palavra dos meus dedos, eu chorei porque me violenta não sentir absolutamente nada que seja digno de se organizar em frases. Eu chorei porque às vezes choro pra ter tinta pra escrever. Eu chorei porque a minha tinta é diluída em lágrima. Eu chorei porque eu choro quando escrevo e dói, doi tanto pensar que talvez tudo isso seja em vão. Eu chorei porque essa dor sobe pela garganta e eu sinto vontade de gritar tudo isso que tenho a dizer, mas não consigo. É como se quando eu começasse a chorar o mundo todo tapasse os ouvidos e de nada me adiantaria gritar. Por isso escrevo. Não sei cantar, por isso escrevo. Não tenho coragem pra gritar, por isso escrevo. Não tenho coragem de amar, por isso escrevo, Não tenho vontade de andar, de fazer, de chutar nada, por isso escrevo. Eu chorei porque eu só sei escrever e isso é tão difícil que choro toda vez que faço. Eu chorei porque eu nunca tenho motivos, mas ainda assim as palavras vem na minha cabeça como se fossem explodir a qualquer momento. Eu chorei porque não tenho medo de balas perdidas, mas sim de palavras. Eu chorei porque um dia eu não tinha caneta, no outro não tinha papel e se um dia eu não tiver mais palavras? Eu chorei porque sonhei que minhas mãos derretiam. Me deixem surda, me deixem muda, mas não me deixem sem minhas mãos. Eu chorei porque minha mãe tem problema de vista e se eu fico cega vou chorar. Eu chorei porque meus livros crescem cada dia mais, mas não cresce em mim a minha vontade de que o meu esteja na sua estante. Eu chorei porque quando me falta amor eu escrevo, quando me sobra amor eu escrevo, quando me dão amor eu escrevo, quando eu sinto saudae eu escrevo. Mas escrever dói. Eu chorei porque descobri que o que me dói não é o amor e sim a vontade de escrever. Eu chorei porque entendi que na verdade, o que me dói é nunca ter o que dizer e me sentir estuprada por isso que sai de mim sem o menor controle. Eu chorei porque muita gente nunca me entendeu, nem acreditou. Eu chorei porque eu li alguma coisa que dizia sobre papéis em branco e quartos vazios. Toda vez que escrevo é como se eu tivesse um quarto cheio de coisas que não consigo enxergar. Eu chorei porque fiquei meses, anos sem dizer uma só palavara e ainda assim não aprendi a cantar. EU chorei porque as frases dos outros se amontoam em mim e eu não consigo escrever. Eu chorei porque me sacudiram e só o que sobrou no fundo do pote foram palavras. Eu sobrei porque queria desenhar e não escrever. Eu chorei porque queria amar e não escrever. Eu chorei porque eu queria andar e não escrever. Eu chorei porque só queria pensar, sem escrever. Eu chorei porque de verdade, eu juro, dói, dói demais sentir essas coisas que . Essas coisas que. Exatamente elas que me fazem chorar. Eu chorei porque toda vez que as lágrimas escorrem elas me dizem alguma coisa. Eu chorei porque quanto mais turvos meus olhos mais claras ficam as minhas palavras.

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Eu chorei porque…

05.outubro.2009

Eu acordei e você estava longe, eu precisava te agarrar com força, te morder, eu precisei de você ontem de noite e você não estava lá. Parecia que eu ia cair dentro do meu coração se não te agarrasse, havia um furo negro que não terminava no meio do meu peito e eu ia despencar, tive uma vertigem, precisei me segurar na cama com força, cravar as unhas no lençol. Eu acordei e você dormia tão linda, eu chorei porque você dormia tão linda. Eu sei, sei que podia, mas não quis te acordar, ter você dormindo ao meu lado era tudo o que eu queria.

- Beatriz Bracher, Davi (ter você dormindo ao meu lado era tudo o que eu queria).